domingo, 23 de agosto de 2026

A menina que eu não conhecia


Ontem fui a uma gira porque tava sentindo falta e a tarde, me senti uma tristeza que, no geral, sempre nos mobiliza a buscar nossa espiritualidade esperando que respostas venham. Seja através das entidades, do pastor, daquelas pessoas que consideramos ser muito "usadas por Deus" nos cultos em que há essa abordagem, ou ainda no sermão do padre. Enfim, na forma em que o divino se manifesta em nossa crença religiosa.

Fato é, que eu nunca havia ido nessa casa e não sabia como funcionava. Cheguei e já havia começado a louvação, mas em poucos minutos o sacerdote de umbanda comunicou que fariam um intervalo e depois daria seguimento. Mas o tempo em cultos religiosos de matrizes africanas é muito relativo, também não foi informado de quanto seria, talvez quem já está acostumado a ir sabia. 

Minutos depois chegou um homem com uma menina que julguei ter uns 7 anos e como a casa era pequena, eles pararam ao meu lado. Logo trouxeram cadeiras para eles sentarem, e quem já visitou umbanda sabe como a hospitalidade é presente para a assistência (pessoas que vão visitar ou receber passe).

Nesse tempo, eu não estava conversando com ninguém, não mexi em celular, fiquei só observando os movimentos e ouvindo os diálogos inclusive desse rapaz, que conversava com o ogã (pessoa que toca o atabaque) da casa. Ele era também um ogã que toca candomblé e foi a convite tocar.

Enquanto ele conversava a filha, sentada ao meu lado, estava jogando no celular e era muito expressiva quando algo acontecia no jogo. Então ela falava alto irritada, se debatia na cadeira e para o ambiente não era adequado. Existem várias questões importantes sobre isso, mas não vou comentar por não ser o foco do texto.

Depois de 1h e 15 minutos, a gira reiniciou e eu, que estava angustiada pelo tempo de espera, me animei. Em dado momento a criança olhou para mim como quem pensa: "você pode me ajudar?" Fez sua pergunta. Ela queria ajuda com algo no jogo, mas eu que não jogo e sou avessa a todos não sabia, mas tentei lhe explicar. E aqui começou a magia. Eu precisei adaptar a minha linguagem a um modo que uma criança não alfabetizada compreenderia. Deu certo e ali o vínculo se estabeleceu. Ela que estava absorvida pelo jogo começou a conversar comigo, me chamando pra jogar e brincar com ela, contou um pouco sobre si, sobre seu fio de contas, quis tirar foto comigo, ir beber água junto e até passou seu "gloss" cor de rosa em mim. Porque sim, ela nem deu tempo de eu responder se queria passar antes da foto. E naquele momento eu recebi o que fui buscar, a alegria. 

Quando de fato a manifestação espiritual começou eu já não era a pessoa que entrou ali. Conseguir perceber isso no exato momento em que acontecia me deixou extremamente feliz e pela segunda vez entendi o recado sobre adoçar a vida e do porquê cultura meu egbe (família espiritual) que sempre me visitam em sonhos ou na rua através das crianças.

Com pouco tempo todos achavam que ela estava comigo, que fosse minha filha. O pai e o tio dela não acreditavam em como ela se apegou a mim. Quando chegou o fim da gira ela se arrumou para ir embora e nem iria me dar tchau, mas eu me despedi dela. E isso também me ensinou sobre fins e partidas. Como acontece na vida, às vezes vamos encontrar pessoas pelas quais sentiremos muita afinidade, mas elas irão partir e deixarão o que podem para nós. Talvez em uma semana eu esqueça dela, talvez ela nem veja a foto que tirou comigo, mas aqueles minutos que passamos juntas serão únicos e repleto de afetos.

Todas as informações sobre espiritualidade nesse texto vem com os estudos que já pude fazer em relação a cultos ancestrais, umbanda, Ifá, candomblé. Quando o escrevi, queria só compartilhar a experiência e fiquei com receio de falar sobre umbanda e sofrer preconceito, mas ao longo da escrita pensei como é importante poder desmistificar os cultos de matrizes africanas.

#afeto #criança #umbanda #erê #egbe #macumba #religião #partidas

domingo, 26 de abril de 2026

O vizinho que eu nem conhecia

     Hoje foi um dia em que fui tomada por um sentimento que fiquei por horas tentando compreender. Moro há dois anos em uma vila e quase não fiz amizades aqui, mas mantenho um bom convívio e estava adaptada a forma como a vila se organiza.

    Porém, nesta manhã, ouvi uma movimentação e achei estranha. Era um dos vizinhos fazendo sua mudança. Isso me atravessou de tal forma que eu fiquei umas duas horas presa em pensamentos e até chorei. Fiquei tentando compreender o porquê eu estava tão abalada com a mudança de uma pessoa com quem eu nem tinha amizade?

    Tempos depois compreendi. Esse vizinho morava quase que de frente para minha casa, era um homem negro, que ouvia samba, alguém que eu vi construir pouco a pouco seu relacionamento afetivo-sexual, que chegava do trabalho, ficava assistindo sua tv e a noite colocava suas músicas e abria sua cerveja, mesmo que fosse em uma terça-feira à noite. Era uma pessoa simples, que cuidava da saúde pensando no envelhecimento, que se apropriou do bairro e extremamente educado.

     Quando eu fiz essa reflexão percebi que o motivo da minha chateação e tristeza era que aquela rotina não existiria mais. Que eu não sabia quem era a pessoa que viria em seguida, que eu não ouviria mais o estalo da latinha de cerveja às sextas-feiras e que eu não tive nem a oportunidade de me despedir. Eu não ouvi ele falar que  iria se mudar, mesmo que no final do ano passado essa tenha sido uma conversa constante entre ele e sua companheira.

    E aí compreendi que era meu velho medo de mudanças gritando, era a dificuldade de lhe dar com despedidas, sobre a qual já escrevi aqui por diversas vezes. Era também o medo de ficar sozinha, já que ele era a única pessoa negra por aqui. Percebi ali o quanto eu estava fechada para o fluxo da vida e também como isso tem me fragilizado.

    Mas como sempre falo por aqui, a espiritualidade em minha vida é muito viva e eu havia me inscrito para uma oficina de dança afro e a experiência foi incrível, não apenas pela dança, mas por todas as palavras de incentivo que ouvi e que me lembraram que eu não estou sozinha por mais que pareça. Que eu preciso olhar para mim, me conectar com quem sou.

    Voltei o caminho conversando com uma menina que participou também da oficina e foi super legal conversar, compartilhar experiências e enfim eu estava feliz novamente. Ainda sinto a ausência dele, mas reconheço que ciclos se fecham para que novos se construam.

"Quando eu venho de Luanda eu não venho só" (Música: Arrancado de lá Luanda)

#vizinhos #vila #despedidas #espiritualidade #vida


sábado, 18 de outubro de 2025

Perspectivas


Achei que era preocupação, mas eram tentativas sutis de controle.

Achei que era cuidado, mas eram tentativas de esconder a indisponibilidade e evitar estar vulnerável. 

Achei que era medo, mas era minha intuição se comunicando através do arrepio no corpo, dos sonhos, dos pensamentos que pareciam sem fundamento. 


Assim, ignorei a confusão, a respiração ofegante, a insônia, a escassez.


Estranhei as tentativas de provar com palavras o que a gente mostra no comportamento, mas achei que precisava observar mais.


Achei estranho a maestria ao usar as palavras e quando testei olhando nos olhos confirmei minha suspeita, mas deixei passar porque queria tentar.


Achei que não estava recebendo mensagens claras da espiritualidade, mas olhando para trás percebo que só não estava preparada para enxergar.


Achei que adiar o fim seria a melhor escolha porque a presença poderia mudar. Mas nada convence alguém que se decidiu. A decisão vem lá dos tempos de infância.

Fidelidade ao útero, passos podados.


Olhar o redemoinho de fora permite que a gente veja cada movimento lucidez.

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#afeto #relacionamento #expectativas #frustração #medo #despedidas #registros #memória

segunda-feira, 31 de março de 2025

Despedidas

Eu percebi que tenho muita dificuldade com as despedidas e os fins. Algo que olhando agora parece claro, mas que essa semana ficou mais evidente. 

Essa foi uma semana atípica para mim, passei por um momento que nunca havia passado, que até meses atrás eu estava morrendo de medo e precisei de bastante tempo para aceitar que não tinha outro caminho.


Em decorrência disso meus dias precisaram ser adaptados, precisei desacelerar meu ritmo, compreender que era pra descansar, pra esperar que fizessem por mim. 


Embora eu tivesse o direito de não trabalhar, não me programei para isso, pois achei que seria muito rápido a recuperação, mas não foi precisei de mais tempo, embora esteja sendo tranquila.


Então precisei organizar um setting terapêutico para atender e no fim tudo deu certo. Mas hoje (14/03), ao finalizar os atendimentos precisei desmontá-lo para voltar a minha rotina, voltar pra casa e nesse momento veio a nostalgia.


Percebi aquele velho sentimento que tinha todas às vezes em que fui a um lugar onde eu me senti muito bem e depois tinha que voltar pra casa. Um aperto no peito, uma sensação de estar perdendo algo e por fim, a despedida.


Então entendi que por mais que eu saiba que tudo pode chegar a um fim e que eu às vezes saia como se não tivesse sido afetada, eu não sei lidar com as despedidas, com os fins.


E não é apenas sobre lugares e coisas. Mas eu já conheço meu ritual.


#despedidas #registros #saúde #memórias

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Diálogos sobre liberdade

    Nesses últimos dias, eu conversei com umas amigas sobre estar desejando fazer coisas novas, porque geralmente eu me entedio facilmente com quase tudo. Uma delas me sugeriu fazer aulas de circo para movimentar o corpo. Achei bem interessante, comecei a procurar e me chamaram a atenção as aulas de lira e tecido, pela sensação de liberdade.


    Na quarta à tarde enquanto caminhava para a aula do mestrado, fui refletindo sobre coisas que eu gostaria de fazer, como aquelas listas para fazer antes dos XX anos. Mas que eu quisesse fazer  por um desejo genuíno e não porque as pessoas fazem ou estão na moda. Esse sempre foi um incômodo, mesmo que em algum momento eu tenha cedido.


    Pois bem, pensei no rapel, mas lembrei que eu tinha vontade de saltar de paraquedas, voar de parapente ou asa delta. Quando cheguei em casa comecei a procurar pessoas e valores. E a mesma sensação que eu tinha anos atrás reapareceu, liberdade.


    Fui me preparando para jantar e enquanto lavava a louça e lembrei de um exercício que fiz há anos atrás, quando participei de um grupo terapêutico. Escolher imagens para fazer uma colagem e dizer o que elas representavam. Lembro-me de ter escolhido uma imagem de céu bem azul, sem nenhuma nuvem e ao falar sobre ela eu disse que me trazia a ideia de liberdade e isso era algo que eu queria ter na vida.


    Hoje, refletindo sobre minha busca, por coisas que me interessam fazer, percebi que todas elas me possibilitam esse sentimento de liberdade. E fiquei pensando que a liberdade está muito mais em você se desobrigar de fazer as coisas que todo mundo faz ou diz que deveríamos fazer, do que viver sozinha, sair sozinha, evitar criar vínculos e fiquei feliz em perceber que estou trilhando esse caminho.


    Esse é um momento da minha vida em que tenho feito muitas auto reflexões sobre "o estar sozinha" e sim, causa muito incômodo. Mas é também um período de reconexão e acho que isso tem muito a ver com amadurecimento. Resgatar quem fomos, aceitar quem somos e permitir que sejamos quem desejamos ser.

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#liberdade #circo #autonomia #voo