domingo, 26 de abril de 2026

O vizinho que eu nem conhecia

     Hoje foi um dia em que fui tomada por um sentimento que fiquei por horas tentando compreender. Moro há dois anos em uma vila e quase não fiz amizades aqui, mas mantenho um bom convívio e estava adaptada a forma como a vila se organiza.

    Porém, nesta manhã, ouvi uma movimentação e achei estranha. Era um dos vizinhos fazendo sua mudança. Isso me atravessou de tal forma que eu fiquei umas duas horas presa em pensamentos e até chorei. Fiquei tentando compreender o porquê eu estava tão abalada com a mudança de uma pessoa com quem eu nem tinha amizade?

    Tempos depois compreendi. Esse vizinho morava quase que de frente para minha casa, era um homem negro, que ouvia samba, alguém que eu vi construir pouco a pouco seu relacionamento afetivo-sexual, que chegava do trabalho, ficava assistindo sua tv e a noite colocava suas músicas e abria sua cerveja, mesmo que fosse em uma terça-feira à noite. Era uma pessoa simples, que cuidava da saúde pensando no envelhecimento, que se apropriou do bairro e extremamente educado.

     Quando eu fiz essa reflexão percebi que o motivo da minha chateação e tristeza era que aquela rotina não existiria mais. Que eu não sabia quem era a pessoa que viria em seguida, que eu não ouviria mais o estalo da latinha de cerveja às sextas-feiras e que eu não tive nem a oportunidade de me despedir. Eu não ouvi ele falar que  iria se mudar, mesmo que no final do ano passado essa tenha sido uma conversa constante entre ele e sua companheira.

    E aí compreendi que era meu velho medo de mudanças gritando, era a dificuldade de lhe dar com despedidas, sobre a qual já escrevi aqui por diversas vezes. Era também o medo de ficar sozinha, já que ele era a única pessoa negra por aqui. Percebi ali o quanto eu estava fechada para o fluxo da vida e também como isso tem me fragilizado.

    Mas como sempre falo por aqui, a espiritualidade em minha vida é muito viva e eu havia me inscrito para uma oficina de dança afro e a experiência foi incrível, não apenas pela dança, mas por todas as palavras de incentivo que ouvi e que me lembraram que eu não estou sozinha por mais que pareça. Que eu preciso olhar para mim, me conectar com quem sou.

    Voltei o caminho conversando com uma menina que participou também da oficina e foi super legal conversar, compartilhar experiências e enfim eu estava feliz novamente. Ainda sinto a ausência dele, mas reconheço que ciclos se fecham para que novos se construam.

"Quando eu venho de Luanda eu não venho só" (Música: Arrancado de lá Luanda)

#vizinhos #vila #despedidas #espiritualidade #vida


sábado, 18 de outubro de 2025

Perspectivas


Achei que era preocupação, mas eram tentativas sutis de controle.

Achei que era cuidado, mas eram tentativas de esconder a indisponibilidade e evitar estar vulnerável. 

Achei que era medo, mas era minha intuição se comunicando através do arrepio no corpo, dos sonhos, dos pensamentos que pareciam sem fundamento. 


Assim, ignorei a confusão, a respiração ofegante, a insônia, a escassez.


Estranhei as tentativas de provar com palavras o que a gente mostra no comportamento, mas achei que precisava observar mais.


Achei estranho a maestria ao usar as palavras e quando testei olhando nos olhos confirmei minha suspeita, mas deixei passar porque queria tentar.


Achei que não estava recebendo mensagens claras da espiritualidade, mas olhando para trás percebo que só não estava preparada para enxergar.


Achei que adiar o fim seria a melhor escolha porque a presença poderia mudar. Mas nada convence alguém que se decidiu. A decisão vem lá dos tempos de infância.

Fidelidade ao útero, passos podados.


Olhar o redemoinho de fora permite que a gente veja cada movimento lucidez.

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#afeto #relacionamento #expectativas #frustração #medo #despedidas #registros #memória

segunda-feira, 31 de março de 2025

Despedidas

Eu percebi que tenho muita dificuldade com as despedidas e os fins. Algo que olhando agora parece claro, mas que essa semana ficou mais evidente. 

Essa foi uma semana atípica para mim, passei por um momento que nunca havia passado, que até meses atrás eu estava morrendo de medo e precisei de bastante tempo para aceitar que não tinha outro caminho.


Em decorrência disso meus dias precisaram ser adaptados, precisei desacelerar meu ritmo, compreender que era pra descansar, pra esperar que fizessem por mim. 


Embora eu tivesse o direito de não trabalhar, não me programei para isso, pois achei que seria muito rápido a recuperação, mas não foi precisei de mais tempo, embora esteja sendo tranquila.


Então precisei organizar um setting terapêutico para atender e no fim tudo deu certo. Mas hoje (14/03), ao finalizar os atendimentos precisei desmontá-lo para voltar a minha rotina, voltar pra casa e nesse momento veio a nostalgia.


Percebi aquele velho sentimento que tinha todas às vezes em que fui a um lugar onde eu me senti muito bem e depois tinha que voltar pra casa. Um aperto no peito, uma sensação de estar perdendo algo e por fim, a despedida.


Então entendi que por mais que eu saiba que tudo pode chegar a um fim e que eu às vezes saia como se não tivesse sido afetada, eu não sei lidar com as despedidas, com os fins.


E não é apenas sobre lugares e coisas. Mas eu já conheço meu ritual.


#despedidas #registros #saúde #memórias

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Diálogos sobre liberdade

    Nesses últimos dias, eu conversei com umas amigas sobre estar desejando fazer coisas novas, porque geralmente eu me entedio facilmente com quase tudo. Uma delas me sugeriu fazer aulas de circo para movimentar o corpo. Achei bem interessante, comecei a procurar e me chamaram a atenção as aulas de lira e tecido, pela sensação de liberdade.


    Na quarta à tarde enquanto caminhava para a aula do mestrado, fui refletindo sobre coisas que eu gostaria de fazer, como aquelas listas para fazer antes dos XX anos. Mas que eu quisesse fazer  por um desejo genuíno e não porque as pessoas fazem ou estão na moda. Esse sempre foi um incômodo, mesmo que em algum momento eu tenha cedido.


    Pois bem, pensei no rapel, mas lembrei que eu tinha vontade de saltar de paraquedas, voar de parapente ou asa delta. Quando cheguei em casa comecei a procurar pessoas e valores. E a mesma sensação que eu tinha anos atrás reapareceu, liberdade.


    Fui me preparando para jantar e enquanto lavava a louça e lembrei de um exercício que fiz há anos atrás, quando participei de um grupo terapêutico. Escolher imagens para fazer uma colagem e dizer o que elas representavam. Lembro-me de ter escolhido uma imagem de céu bem azul, sem nenhuma nuvem e ao falar sobre ela eu disse que me trazia a ideia de liberdade e isso era algo que eu queria ter na vida.


    Hoje, refletindo sobre minha busca, por coisas que me interessam fazer, percebi que todas elas me possibilitam esse sentimento de liberdade. E fiquei pensando que a liberdade está muito mais em você se desobrigar de fazer as coisas que todo mundo faz ou diz que deveríamos fazer, do que viver sozinha, sair sozinha, evitar criar vínculos e fiquei feliz em perceber que estou trilhando esse caminho.


    Esse é um momento da minha vida em que tenho feito muitas auto reflexões sobre "o estar sozinha" e sim, causa muito incômodo. Mas é também um período de reconexão e acho que isso tem muito a ver com amadurecimento. Resgatar quem fomos, aceitar quem somos e permitir que sejamos quem desejamos ser.

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#liberdade #circo #autonomia #voo

 

quarta-feira, 15 de maio de 2024

Eu escolhi interromper os ciclos de violências

              O título deste texto surgiu a partir de uma reflexão em torno da forma como trato as pessoas, esmo aquelas que apresentam um comportamento desagradável em relação a mim.

Tenho bem estabelecido em minha forma de pensar que quero sempre tratar bem e com respeito todas as pessoas porque é também dessa forma que gostaria de ser tratada. Sempre consigo? Não. Às vezes eu sou desatenta na relação com o outro, às vezes autoritária, por vezes não consigo me comunicar de forma assertiva o que sinto e em alguns momentos sou individualista e não entenda ser individualista como um problema. Nós precisamos mesmo estabelecer certos limites nas relações para que não nos percamos de quem somos e para que sejamos respeitados. Mas é preciso estar atento à medida da individualidade.

E acho que esse é o ponto para que eu entre no tema que queria trazer. A violência presente na experiência de vida de pessoas negras que inevitavelmente produz uma subjetividade, a forma de ser de cada ser humano, adoecida.

Desde a infância os corpos negros experimentam diversos tipos de violências, sejam no ambiente familiar, no escolar, nas instituições sociais pelas quais passa ao longo de sua vida como um todo, devido a estrutura racista em que nossa sociedade foi formada e que define não só a forma como pessoas não brancas serão tratadas, como também os lugares que elas podem ou não ocupar. E o lugar de ser humano que merece receber afeto, é um dos que lhe foi retirado o direito de acessar, provocando tamanha desumanização desses corpos.

Não vou entrar aqui em detalhes das consequências do racismo na vida de pessoas negras para não gerar maior sofrimento e não cair no erro de unificar as experiências, apesar de já estar posto que existe uma narrativa comum quanto a essas experiências e o racismo em suas diversas formas é o que as atravessam.

Pois bem, resgato aqui o objetivo deste texto: o resgate da humanidade através do afeto e do cuidado. Entender que por anos nossos corpos têm sido tratados como mercadoria e que precisamos resgatar formas de cuidar que nos devolva o direito de sentir e falar sobre o que se sente são imprescindíveis para perpetuar e afirmar nossa existência. E não há caminhos para se fazer isso que não passe pelo aquilombamento, pelo resgate dos valores africanos e do sentido do que é viver em comunidade.

Sendo assim, para mim, é claro o entendimento de que se eu escolhi interromper esses ciclos de violências sofridas por mim e por minha comunidade, eu preciso ter comportamentos que condizem com isso.

O Psicólogo Rômulo Mafra diz que “o maior genocídio da escravidão foi o assassinato da autoestima do negro, que persiste até hoje.” E olhar principalmente para pessoas negras, suas experiências, seus traumas e adoecimentos com afeto, oferecer cuidado, escuta e criar um ambiente para que ela possa não reviver essas dores, mas conseguir verbalizar e ressignificá-las, é parte fundamental do objetivo de devolver a humanidade aos corpos negros e possibilitar a formação de outras subjetividades. 

Talvez essa atitude se aproxime ao máximo do que Bell Hooks define como amor, que estaria mais no campo da ação do que de um sentimento. Seria um movimento que nos coloca contra o domínio e opressão aos quais fomos submetidos há anos. E que envolveria a “combinação de cuidado, compromisso, conhecimento, responsabilidade, respeito e confiança”. E para entender esse conceito precisamos pensar amor, fora da lógica ocidental.

E como Psicóloga que segue uma abordagem terapêutica humanista, onde acredita-se que existem três condições facilitadoras nas relação terapêutica e que precisam ser intrínsecas ao terapeuta, eu não poderia ser diferente. Essa forma de ser se expressa na vida e na clínica.

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