Hoje foi um dia em que fui tomada por um sentimento que fiquei por horas tentando compreender. Moro há dois anos em uma vila e quase não fiz amizades aqui, mas mantenho um bom convívio e estava adaptada a forma como a vila se organiza.
Porém, nesta manhã, ouvi uma movimentação e achei estranha. Era um dos vizinhos fazendo sua mudança. Isso me atravessou de tal forma que eu fiquei umas duas horas presa em pensamentos e até chorei. Fiquei tentando compreender o porquê eu estava tão abalada com a mudança de uma pessoa com quem eu nem tinha amizade?
Tempos depois compreendi. Esse vizinho morava quase que de frente para minha casa, era um homem negro, que ouvia samba, alguém que eu vi construir pouco a pouco seu relacionamento afetivo-sexual, que chegava do trabalho, ficava assistindo sua tv e a noite colocava suas músicas e abria sua cerveja, mesmo que fosse em uma terça-feira à noite. Era uma pessoa simples, que cuidava da saúde pensando no envelhecimento, que se apropriou do bairro e extremamente educado.
Quando eu fiz essa reflexão percebi que o motivo da minha chateação e tristeza era que aquela rotina não existiria mais. Que eu não sabia quem era a pessoa que viria em seguida, que eu não ouviria mais o estalo da latinha de cerveja às sextas-feiras e que eu não tive nem a oportunidade de me despedir. Eu não ouvi ele falar que iria se mudar, mesmo que no final do ano passado essa tenha sido uma conversa constante entre ele e sua companheira.
E aí compreendi que era meu velho medo de mudanças gritando, era a dificuldade de lhe dar com despedidas, sobre a qual já escrevi aqui por diversas vezes. Era também o medo de ficar sozinha, já que ele era a única pessoa negra por aqui. Percebi ali o quanto eu estava fechada para o fluxo da vida e também como isso tem me fragilizado.
Mas como sempre falo por aqui, a espiritualidade em minha vida é muito viva e eu havia me inscrito para uma oficina de dança afro e a experiência foi incrível, não apenas pela dança, mas por todas as palavras de incentivo que ouvi e que me lembraram que eu não estou sozinha por mais que pareça. Que eu preciso olhar para mim, me conectar com quem sou.
Voltei o caminho conversando com uma menina que participou também da oficina e foi super legal conversar, compartilhar experiências e enfim eu estava feliz novamente. Ainda sinto a ausência dele, mas reconheço que ciclos se fecham para que novos se construam.
"Quando eu venho de Luanda eu não venho só" (Música: Arrancado de lá Luanda)
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